No próximo domingo, 8 de março, é o Dia internacional da Mulher, oficialmente, ainda. Não deveria. O dia da mulher, nacional ou internacionalmente, deveria ser todos os dias, o ano inteiro. Aliás, como qualquer dia deveria ser o sagrado dia das flores, dos animais, das crianças, dos homossexuais, transexuais, pansexuais, dos homens e de qualquer ser vivo que tenha amor e prazer para dar. Quando esse dia chegar, aí sim, haverá motivos de sobra para comemorar. E muito.

Agora. Dores de amor? Paixões não correspondidas? Desencontros? Para isto parece que não haverá jeito, infelizmente. Ou felizmente. Quem sabe? Porque são estes sentimentos intensos, estas agitações loucas do corpo e da alma que dão colorido à vida, que nos lançam a sentimentos profundos ou sublimes ou que, ao menos, constituem o solo onde germinam a poesia, a música e os romances que amamos.

O prazer da mulher

O prazer sexual feminino sempre deu o que falar e o que cantar, mas também sempre deu o que temer. Na pré-história havia sociedades matriarcais.  Desde estes tempos primitivos em que a mulher esteve no comando, muita água e muitas coisas rolaram embaixo da ponte.  A mulher, o sexo da mulher e o prazer sexual feminino passaram por diversas fases e tratamentos.

Uma coisa é clara, em qualquer tempo, latitude e longitude da humanidade, a humanidade sempre reconheceu a função sexual da mulher. Os mitos da fertilidade, da procriação e da perpetuação da espécie sempre foram exaltados por todas as culturas. Já o prazer sexual feminino, sempre foi objeto de polêmica e até de desconfiança, conforme o sistema econômico, religioso e cultural vigentes em cada lugar, em cada época.

Deusas na antiguidade

Na Grécia Antiga, havia uma deusa do Amor – Afrodite – e há várias lendas de deusas que agiam motivadas pela atração física, pelo desejo, paixão e amor, como qualquer reles mortal. O amor homossexual era visto como algo natural, pinturas, textos e os poemas eróticos de Safo de Lesbos estão aí até hoje para comprovar.

Mas a tendência da humanidade não foi bem essa. Em geral, o prazer sexual da mulher sempre causou medo e desconfiança, e muita coisa foi feita para condenar, evitar, punir e até mesmo negar o prazer sexual da fêmea.  Muitas religiões determinaram que o sexo da mulher deve ser utilizado exclusivamente para fins de reprodução da espécie.

Pecadoras

O desejo físico foi tido como pecado, como causa da expulsão do Paraíso, mulheres deveriam estar vestidas de forma a esconder sua beleza e atrativos naturais, raspando os cabelos, jamais expondo o corpo nu até mesmo para os maridos. Muitas foram chamadas de bruxas e, cúmulo do radicalismo, em alguns lugares, até hoje, o clitóris é extirpado para que a mulher seja imune à tentação do prazer carnal.

Resumindo: sexo só casando e mesmo assim só para ter filhos. O resto seria pura safadeza, pecado e até mesmo punível com a exclusão da sociedade ou com o apedrejamento.

Lógico, nada disso impediu que os homens continuassem a desejar e desfrutar do prazer sexual com mulheres: prostitutas, cortesãs, escravas, dançarinas do ventre, haréns, estupros, as mil virgens prometidas no Jardim de Alah, o poder econômico, o pátrio poder, a prerrogativa da iniciativa, a virgindade, o casamento indissolúvel, o adultério, enfim, incontáveis saídas, truques e muita hipocrisia para assegurar o direito do macho gozar quando lhe desse na telha.

Bem, muitas dessas proibições legais e/ou religiosas já fazem parte do passado em várias partes do mundo. Mas, como sabemos, ainda sobrou muito desse lixo insano sob a forma de preconceitos religiosos, culturais e sociais. Muita repressão, muita inibição, muitas encanações.

Donas de seu próprio nariz

Mas estamos no século XXI, no ocidente, numa democracia, ou algo parecido com isso. Então está tudo resolvido? Claro que não. Mas devemos de reconhecer que avançamos. Hoje você já pode ser dona do seu nariz (está lendo este texto, não?), ganhar seu dinheiro, ser independente e escolher, livremente, ter prazer com um homem, com uma mulher ou com você mesma, ou com tudo junto e misturado.

Hoje, uma mulher não precisa ser Safo de Lesbos, Cleópatra, a rainha de Sabá, Catarina de Médici, espiã ou agente secreta para transar e ter prazer.  Por isso, há muitos e bons motivos para comemorar. E aí?  Vai encarar?