O movimento #MeToo demonstrou enorme sucesso na conscientização sobre assédio e agressão sexual. Esse esforço, contudo, tem enfrentado reações negativas. Um exemplo é a queixa pública de uma mulher que, usando o pseudônimo “Grace”, descreve um encontro sexual indesejado com o ator Aziz Ansari. Em um artigo publicado na revista online Babe, Grace narra a data em que, retrospectivamente, ela passou a ser vista como uma violação sexual. Grace conta que fez sexo oral em Ansari depois de seus repetidos pedidos para uma relação sexual, que ela considerou não ser bem-vinda. Críticos acusam Grace de prejudicar a credibilidade do movimento #MeToo ao se retratar como vítima depois de lamentar sua participação consensual em atividades sexuais indesejáveis.

A história de Grace inspira a pergunta: “Por que uma jovem participaria voluntariamente de uma atividade sexual que ela não deseja?”.

Consentimento e desejo não são a mesma coisa

Para responder a essa pergunta, é importante entender que sexo consensual e sexo desejado nem sempre são sinônimos. Jovens de ambos os sexos podem concordar em se envolver em atividades sexuais que realmente não desejam. No entanto, os roteiros culturais que cercam as relações heterossexuais podem tornar isso uma realidade para as mulheres com mais frequência do que para os homens.

Os retratos culturais da sexualidade heterossexual frequentemente mostram que os jovens têm um desejo sexual mais forte do que as jovens. Espera-se que os homens façam avanços sexuais em relação às mulheres – e espera-se que as mulheres simplesmente respondam a esses avanços. O desejo sexual e o prazer das mulheres são vistos como secundários aos desejos dos homens. Isso pode fazer com que as jovens aceitem avanços indesejados e participem de sexo indesejado com o objetivo de agradar um parceiro.

O perigo de não reconhecer o desejo

Muitas mulheres que não percebem seu próprio desejo sexual como razão adequada para se engajar em atividade sexual podem não interpretar sua falta de desejo, em um dado cenário, como motivo para recusar a atividade sexual. Elas podem aceitar a relação sexual, não por que realmente a desejam, mas apenas para satisfazer o desejo de um parceiro.

A pesquisa

Essa hipótese foi testada pela socióloga Heather H. Kettrey, que estuda o poder e a sexualidade, com dados de uma pesquisa com de mais de 7.000 universitárias heterossexuais.

Ela descobriu que quase um terço das mulheres da amostra relatou priorizar o prazer sexual do parceiro sobre o seu. Essas mulheres acreditavam que era mais importante satisfazer seus parceiros do que eles satisfazê-las.  Ao mesmo tempo, cerca de metade das mulheres da amostra relatou que era importante o sexo ser prazeroso tanto para o parceiro quanto para si mesma.

Ao comparar esses dois grupos de mulheres, ela percebeu que as mulheres que valorizavam igualmente o prazer do parceiro e o seu próprio tinham 35% menos chances de realizar atos sexuais indesejados para agradar o parceiro.

Em relação aos avanços sexuais, a pesquisa revelou que mais de 60% das mulheres relataram que seu parceiro iniciou a maior parte da atividade sexual. Cerca de 10% das mulheres relataram que foram elas a tomar a iniciativa. A comparação entre esses dois grupos revelou que aquelas que iniciaram tiveram 34% menos chances de realizar atos sexuais indesejáveis para agradar seu parceiro – e 63% menor chance de sucumbir à pressão verbal por uma relação sexual.

É preciso mudar a discussão

Hoje, os jovens estão moldando suas relações sexuais em um momento único em que as conversas sobre sexo, poder e violência estão mudando muito. Reconhecer mulheres como sujeitos sexuais com desejos próprios pode salvaguardar as mulheres de consentirem em atividades sexuais indesejadas com o propósito de agradar um parceiro.

A questão que deixamos para sua reflexão é: como as mulheres podem dizer não ao sexo quando não podem dizer sinceramente sim?

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Editado do jornal online The Conversation