“… de leve que é na contramão.”  (“De Leve”, versão: Gilberto Gil / Rita Lee p/ ‘Get Back” Lennon / McCartney)

Sodomia, “por trás”, “trenzinho”, “à brasileira” (lembram de “Pantaleão e as Visitadoras”, do escritor Mário Vargas Llosa?),  tanto faz o nome pelo qual for chamado, o sexo anal sempre existiu e sempre vai existir. Antes, entre homem e mulher ou entre dois homens, hoje em dia – com a ajuda de sextoys – também entre duas mulheres.

Já foi tabu para muitos, ainda é pecado para alguns, perversão para outros e apenas há alguns anos deixou de ser crime na Inglaterra. Contudo, na Grécia Antiga e no Império Romano não só era comum como também era socialmente aceito.

O fato é que esta questão está cada vez mais na ordem do dia – em filmes como “Instinto Selvagem” e “Diário de Bridget Jones” e, claro, em filmes pornô-chic e pornô explícito.

Desejo ou fixação?

Se antes era um desejo (fixação?) quase exclusivo de homens (homo e heterossexuais), a cada dia vem despertando o interesse de um número cada vez maior de mulheres abertas a novas modalidades de prazer, graças à difusão do conhecimento, diminuição de preconceitos e avanços tecnológicos em produtos específicos (Miss Scarlett selecionou o que há de melhor  para você conhecer. Escolha o seu).

A princípio, a curiosidade e desejo por novas fontes e modos de prazer deveriam ser comuns a todos. E aqui é bom lembrar: mesmo sem haver penetração de um falo humano ou sintético (vibradores, cintas penianas, dedeiras, etc.), a estimulação desta zona erógena pode proporcionar (e proporciona!) bons momento de excitação e prazer para mulheres e homens (homo, bi ou heterossexuais).

O assunto continua controverso: tem gente que adora, tem gente que nem pode ouvir falar.

Afinal, esta modalidade envolve inúmeros fatores: desde aspectos anatômicos, fisiológicos, psicológicos, sociais e religiosos, até questões de estética, higiene e saúde, sem contar o lado emocional da relação dos (as) praticantes envolvidos (as), especialmente da parte receptora, a quem pertence o ânus.

Vamos então tentar entender os dois lados desta questão: o de quem entra, chamado de ativo (a) e o de quem recebe, chamado de passivo (a) ou receptor(a).

Da parte dos ativos, o grande atrativo estaria num envolvimento maior e mais intenso do pênis que esta variante proporciona.

As mulheres que se declaram adeptas desta prática – que em tese são as únicas pessoas que podem fazer uma comparação entre o orgasmo vaginal, o orgasmo clitoriano e o prazer do sexo anal – afirmam que não há menor, maior, ou melhor: seriam simplesmente três tipos diferentes de prazer, cada um especialmente bom, conforme o momento.

Uma aula de anatomia.

Uma possível explicação anatômica seria que nesta forma de sexo, o pênis entraria num ângulo e posição mais favoráveis para estimular o períneo – músculo localizado entre a entrada da vagina e do ânus – que têm papel relevante para a estimulação feminina. Lembrando que a estimulação simultânea do clitóris é altamente recomendada para alcançar o máximo de excitação.

Para ajudar a esclarecer um pouco estas questões, extraímos algumas informações de uma entrevista realizada pela Goop.com com Paul Joannides, psicanalista e autor de “The Guide to Getting it On!”, livro sobre sexualidade indicado em universidades e faculdades de medicina nos EUA e no Canadá.

As estatísticas.

Ele cita uma pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), a qual estima que entre 30% e 40% de homens e mulheres heterossexuais já experimentaram o sexo anal, e que destes, cerca de 10% a 15% afirmaram gostar muito. A faixa de frequência da grande maioria seria de uma relação pelo ânus para cada cinco ou dez relações pela vagina. Segundo ele, seriam muito poucas as mulheres que afirmam ter relações anais com a mesma frequência de relações “pela frente”.

Quanto aos homossexuais masculinos, as estatísticas variam bastante e, segundo Joannides, os estudos nem sempre parecem consistentes.  Alguns sugerem que 65% dos homens têm sexo anal e outros que sugerem que o número é inferior a 50%. Outros levantamentos indicariam que mesmo entre gays, um percentual significativo prefere fazer sexo oral a ter sexo anal.

Antes de tudo é preciso admitir que estas reações “negativas” geralmente têm razões muito compreensíveis: há a questão da dor (referida em maior ou menor grau até mesmo pels adeptos mais fervorosos da modalidade, e obviamente estamos falando de praticantes não masoquistas, bem entendido). Existem também questões de higiene e saúde, bem como psicológicas e religiosas.

O ânus – literalmente, o alvo central deste debate – é um esfíncter (uma válvula), cujo objetivo é proporcionar o controle eficiente da etapa final do processo de digestão. Está programado para permanecer fechado, contraído.  Apenas em parte o controle desta musculatura é feito por comandos voluntários, a outra, é comandada por reflexos automáticos, involuntários.

Para superar este conjunto de comandos voluntários e involuntários desenvolvidos para manter a musculatura fechada (contraída) é recomendável utilizar técnicas de relaxamento e preparação.

O consentimento é fundamental, sem ele, fica muito mais difícil levar o parceiro ou a parceira sentir desejo de experimentar, tornando mais difícil ainda chegar ao ponto de sentir prazer que, normalmente é (ou deveria ser) o objetivo comum de qualquer tipo de sexo. E tudo que é gostoso tem mais chance ser repetido outras vezes, não?

Por isso, é quase certo que forçar “a barra” na entrada causará resistência ou rejeição da parceira ou parceiro, resultando numa maior contração dos músculos e nessas circunstâncias a introdução do pênis causará dor, que segundo vários e vários relatos, pode ser intensa ou mesmo traumática. De onde vocês acham que vem expressões cotidianas como vai “tomar no c*”,  “tomar no r***” e outras similares?

Escolha o jogo.

Não se pode minimizar os aspectos pessoais e psicológicos que estão envolvidos. Grande parte dos homens (especialmente heterossexuais) tende a transformar esta forma de ato sexual num objetivo em si próprio, numa espécie de “fronteira final”, “tríplice coroa” ou “Grand Slam”.  Diante da frequente resistência de parceiras e parceiros em “dar o cu”, parte dos homens  tende a associar a prática deste ato a uma “conquista de território” ou até mesmo considerá-la um símbolo de entrega, dominação ou submissão do (a) parceira (o).

Aliás, relações sexuais (de qualquer tipo) não precisam e não devem ser como um jogo de tênis: dois atletas, um no ataque, outro na defesa, um tentando superar o outro. Muito melhor quando prevalece o espírito do frescobol: duas pessoas saudáveis se divertindo sem contagem de pontos, os dois se esforçando para não deixar a bolinha cair, prolongando o prazer pelo maior tempo possível.

Paul Joannides lembra que a partir da década de 80, os filmes de pornô explícito tiveram papel fundamental na divulgação do sexo anal, porém, ele ressalva que por serem obras de ficção e entretenimento, estes filmes nunca mostram a fase de preparação e muito menos a etapa de exercícios preparatórios. Obviamente, as fases de desenvolvimento gradual de uma relação de confiança, entrosamento, consentimento entre parceiros e parceiras nem de leve passam pelas cenas destes filmes.

A regra é que o relaxamento é fundamental para que a dor não impeça ou atrapalhe um momento que deve ser de grande intimidade e prazer. Improvisos e “ataques-surpresa” podem até ter dado certo com alguém, algum dia, mas são exceções raríssimas. Melhor não arriscar.

 Técnicas que podem facilitar.

Uma boa forma de “preparar o terreno” é o conhecido “fio-terra” (introdução do dedo no ânus). Logicamente, com carinho, sem pressa. Deixe que a ponta do dedo vá tateando as bordas do ânus, estabelecendo contato, “se apresentado” até ser convidado a entrar. Aberta “a porta”, nada de ansiedade: entre aos poucos, dando tempo para que os músculos se contraiam e relaxem, adaptando-se à chegada do “convidado”. Óleos lubrificantes são excelentes, quase indispensáveis, para facilitar a entrada e torná-la agradável para a (o) parceira (o). A linha de vibradores escolhidos por Miss Scarlet podem ajudar muito nesta etapa.

Os mais ousados podem recorrer ao “beijo grego”, que nada mais é que um beijo exatamente onde você está pensando. Uma espécie de retro cunilíngue.

Importante: muita gente recorre ao auxílio de óleos lubrificantes com anestésico, porém, vários especialistas são contrários à utilização deste recurso, explicando que a dor pode ser um sinal importante do grau de relaxamento e do limite anatômico a ser respeitado naquele momento.

Também é bom lembrar que este é o comportamento sexual mais arriscado em termos de HIV, de outras doenças sexuais transmissíveis (DSTs), ou mesmo de algumas infecções bacterianas.

O preservativo seguramente é o meio mais eficaz de evitar qualquer tipo de contaminação. É 100% seguro e não precisa ser necessariamente um empecilho: existem vários modelos com texturas muito estimulantes , em diversas cores, inclusive fluorescentes que, no escuro, dão um toque todo especial. Consulte as opções de Miss Scarlet.

Lubrificantes ou óleo também são importantes: além de facilitar muito a penetração, reduzem significativamente a chance de o pênis provocar algum tipo de lesão, e vários produtos são também antissépticos, contribuindo para evitar contaminações.

Higiene é tudo.

Após tratar de várias questões cabulosas, deixamos as de higiene para o para o final. Bem supomos que nossos leitores são adultos ou pelo menos bem crescidinhas (os) para saber que o sexo anal se faz no mesmo local onde termina a digestão e, portanto, têm ideia dos inconvenientes que isto pode representar.

Para não serem pegos de surpresa, os adeptos  mais experientes, inclusive atores e atrizes de filmes de sexo explícito fazem uso do clister alguns minutos antes do início do intercurso anal. O clister ou enema, popularmente também conhecido pelo simpático apelido de “xuca”, nada mais é do que a lavagem com água do ânus, reto e segmento final do intestino, de forma a eliminar restos sólidos, líquidos e gasosos da digestão, de forma a deixar o local mais limpo, o mais livre possível de acontecimentos naturais, porém não muito românticos, entenderam?

A primeira vez

Agora que já esclarecemos as dúvidas mais comuns e desmitificamos a ideia de que sexo anal é sempre dolorido, como fazer para que a primeira experiência seja agradável?

Primeiro: leia tudo o que puder sobre o assunto. Depois, ajude seu parceiro (a) receptor a treinar seus esfíncteres anais para relaxar. Por fim, mas não menos importante, certifique-se de que vocês tenham uma boa comunicação sexual, confiança e que ambos desejam fazê-lo. Não pressione, nem se sinta pressionado.  Dessa forma, vocês terão uma experiência muito prazerosa, como a do casal do vídeo abaixo.

As opiniões expressas aqui pretendem destacar estudos alternativos e provocar o debate. Este artigo não é, nem pretende ser, um substituto para aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento.