A pornografia pode ser ética?

A pornografia é apenas uma faceta da expressão sexual humana e, portanto, é  errônea a percepção  de que a sua produção explore os profissionais da área,  destrua casamentos e imponha o inatingível corpo sarado. Esta tem sido a experiência do psicólogo David Ley, terapeuta sexual e diretor executivo do New Mexico Solutions (um dos maiores programas de saúde mental do Novo México, nos EUA). Ley começou sua carreira tratando os perpetradores de abuso sexual, mas expandiu sua abordagem para incluir a promoção da sexualidade saudável e a consciência da existência de uma ampla gama de comportamentos sexuais.

Como você entrou no estudo e no tratamento da pornografia e do comportamento sexual viciante?

Eu atendo um grande número de pessoas que foram prejudicadas por terem sido taxadas como viciadas em sexo. Os temas relacionados à pornografia constituem uma grande parte desse grupo. Eu percebi que há pouco diálogo sobre o “meio termo”. A maioria das pessoas está neste “meio termo” e tem medo de que essa atitude possa ser julgada como insalubre ou perigosa pela nossa sociedade, que é altamente negativa do sexo. Há uma desconexão entre a ciência da sexualidade e as questões morais que as pessoas têm sobre sexo.

Quais são os parâmetros do que é considerado pornografia ética?

Em termos de produção, a pornografia ética é um meio onde os artistas recebem um salário justo pelo seu trabalho, são tratados com dignidade e respeito, não se espera que se envolvam em atos contra sua vontade, e onde a sexualidade é reconhecida como uma experiência diversa e individual. A pornografia ética também representa a grande diversidade de experiências e desejos sexuais, da pornografia LGBT à pornografia centrada nas feministas, até a pornografia que envolve uma grande variedade de tipos de corpo. Pornografia ética pode ser soft ou hardcore, mas você pode assistir sabendo que os artistas estão envolvidos em comportamentos que gostam e consentem. Grande parte da pornografia ética é produzida atualmente por mulheres que, frequentemente, são elas mesmas as atrizes.

Homens que assistem pornografia demais podem ter disfunções sexuais quando tentam ter sexo com uma pessoa real? Esse problema existe? 

Até hoje não há evidência científica que sugira que assistir muito filme pornô predispõe a disfunções sexuais, como a disfunção erétil. Há muitas piadas que sugerem isso, mas desconfio delas – geralmente surgem de grupos morais opostos à pornografia, que sabem que a melhor maneira de assustar um cara é ameaçar seu pênis. É exatamente igual quando disseram às mulheres que usar vibradores  era insalubre e criava dependência. Não aceitamos mais essa ideia. Sabemos que foi um estratagema para controlar a sexualidade feminina. Para essas pessoas, “sexo saudável” é a monogamia heterossexual que exclui a masturbação, a diversidade sexual, etc.

Há pesquisas sugerindo que as pessoas que assistem pornografia tendem a fazer mais sexo, e ter maior interesse na experimentação sexual. Há também estudos que mostram que os homens que se masturbam muito assistindo pornografia podem retardar a ejaculação. Em outras palavras, os efeitos da pornografia são individuais. Por exemplo, atendo homens que podem se masturbar sem dificuldade com pornografia, mas lutam para conseguir uma ereção com uma parceira feminina. Para esses homens, a masturbação é “mais fácil” do que o sexo com outra pessoa. Esta perspectiva também ajuda a criar uma definição expandida de “sexo”, para incluir muito mais do que apenas “pênis na vagina”, mas também as preliminares, o sexo oral, a estimulação manual e todos os tipos de intimidade que não requerem uma ereção.

Existem tipos específicos de pornografia que causam mais problemas para os homens em relacionamentos pessoais?

Questões de disfunção erétil e uso de pornografia recebem pouca preocupação na comunidade homossexual. Mas no diálogo heterossexual, se um homem não tem uma ereção, a ideia é que há algo de errado com ele. Acho isso triste.

Pornografia é fantasia externada. Não há evidência de que diferentes tipos de fantasia sexual tenham efeitos diferenciais no desempenho sexual de uma pessoa.

O retrato dos homossexuais e das mulheres nos filmes pornôs é parecido com a realidade ou há distorções?

O uso da pornografia, a masturbação, a diversidade sexual, o interesse em uma variedade de parceiros são muito mais aceitos na comunidade masculina gay. Raramente alguém se envergonha por gostar disso. Claro que podem surgir problemas, mas esses conflitos estão mais ligados aos diálogos na comunidade heterossexual. Lá, se um homem está interessado em alguém que não seja sua parceira, isso é muitas vezes retratado como um fracasso – por parte do homem, ou da mulher. Essa ideia tem pouco a ver com a realidade da sexualidade humana, e muito a ver com ideias socialmente aceitas sobre o que pensamos que o sexo e as relações devem ser.

As mulheres ficam viciadas em pornografia? Como os dois sexos diferem em termos do que a pornografia causa na vida real?

De acordo com a maioria das pesquisas, 95% dos viciados em sexo são homens. Metade são homens brancos que ganham mais de US $ 100.000 por ano. Esta é uma questão muito significativa, sugerindo que o que realmente está acontecendo é uma forma de privilégio sexual, onde os comportamentos sexualmente egoístas de machos poderosos são explicados como uma forma de doença.

Está crescendo o número de mulheres que assistem pornô. Mas elas assistem pornô de maneiras diferentes dos homens, refletindo algumas das diferenças entre a sexualidade masculina e feminina. Por exemplo, as mulheres procuram por pornografia hardcore muito mais do que os homens. Isso reflete as tendências sexuais erotizadas por filmes como “50 tons de Cinza”, que é uma forma feminina de pornografia muito mais aceitável em nossa sociedade do que o uso masculino do filme pornô. Com isso, não quero dizer que alguém é melhor ou pior, mas convidar as pessoas a considerar  que assumimos que a sexualidade masculina é inerentemente perigosa, enquanto a sexualidade feminina é intrinsecamente passiva e inofensiva.

Tem jeito certo ou errado em assistir pornografia quando se está numa boa relação sexual?

Os casais que assistem a pornografia costumam ter relações sexuais mais saudáveis. Só há indícios de resultados negativos no relacionamento quando a pornografia é assistida em segredo. Esses casais seriam melhores se pudessem discutir abertamente as necessidades e interesses sexuais e negociar cenários de ganha-ganha. O fato de um dos parceiros estar vendo pornografia em segredo significa que há necessidades sexuais insatisfeitas e uma incapacidade de discuti-las. Isso é triste, porque são esses conflitos, e não a própria pornografia, que, em última instância, desafiam a relação.

Agora que você  já deixou o preconceito de lado, vale arriscar algumas brincadeiras para deixar a sua vida sexual ainda mellhor. Miss Scarlet tem o que você procura. Conheça.

Editado do texto original publicado no www.goop.com